No caso da parasitose, deve-se fazer a vermifugação. Matar os vermes que acometem os pobres animais. Dar-se-á, então, a sub-dose, ou sobre-dose, o que acaba por ocasionar a criação do super verme resistente a tudo!

30 de jul de 2009

avec le diable dans son corps


A primeira vez que soube sobre ela foi no saite de busca. Eu acabara de criar um alter ego, aquela que seria minha mais ácida e direta persona: Joan Palmer Baker. O nome veio num súbito, logo após a frase que fechava o poema em linha reta: "eu menti só pra te comer". Quem antes de mim chamou-se assim? No saite de busca encontrei alguns poucos ilustres, mas um nome me chamou atenção de cara: Josephine Baker. Com um clique, descobri que ela fora muito mais que ilustre. Uma diva do jazz. Coincidência ou não, eu lia na época "História Social do jazz", de Eric Hobsbawn.

Em todos os saites que encontrei, havia uma foto de Georges Simenon (que teve um caso com ela na década de vinte) com Josephine, usando um vestido de chiffon bordado com contas e se fazendo de vesga. A foto me atraiu de uma forma inexplicável. Por um lado, fiquei encantada com aquela sua capacidade de rir da própria beleza e fascínio. Ela parecia estar dizendo, "O que estou fazendo neste vestido? Neste corpo?" Na ocasião eu não sabia que ela estava ligada a uma tradição cômica negra, nem entendia todas as formas (nem sei se as entendo agora) pelas quais ela operava na vida psíquica de Josephine. Ela simplesmente me deixou intrigada, parecendo me conduzir para questões interessantes. Embora existissem outras expressões, as fotografias de seu grande sorriso de olhos vesgos tornaram-se para mim "textos" importantes.

Os saites sobre ela não me diziam muito, na verdade serviram-me mais para aguçar a curiosidade, e a minha intuição dizia que eu iria apaixonar-me a sério. As buscas em livrarias e bibliotecas eram constantes, mas a tarefa era árdua, a Cleópatra do jazz estava quase em anonimato! O que me instigava ainda mais. E durante as buscas costumava me perguntar por que eu me interessava por Josephine Baker. O que me levara a ela, teria sido mesmo a coincidência de nossos nomes? A verdade é que a procura foi tão instintiva quanto a de quem se apaixona. Não se começa por fazer uma lista das qualidades e dos talentos que se admiram para depois se sair à procura de alguém que os encarne. Vê-se uma pessoa, sente-se como uma espécie de luz interior. Se a escolha for séria, as listas, os motivos, as racionalizações virão depois, acompanhadas de novos interesses e de uma ampliação do sistema de coordenadas da vida de cada um. Pois a dedicação a uma nova pessoa seja ela imaginária, como no caso da biografia, seja física, como no caso do amor, é quase sempre renovadora.

E eis que ocorre o encontro, por mero "acaso" novamente. Encontrei três exemplares num sebo recém construído num prédio histórico de Franca: "A Cleópatra do Jazz – Josephine Baker e seu tempo", de Phyllis Rose.

Iniciando a leitura, eu procurava algo de Josephine Baker: uma certa espontaneidade, destemor, energia, alegria, devido àquelas fotos. Não demorei muito a perceber que estava participando do fenômeno que a autora descrevia: a forma pela qual as platéias européias dos anos vinte, em busca de uma renovação nitidamente racial, concentraram suas fantasias de encontrar a alegria, a liberdade e a energia em Josephine Baker, especialmente por ela ser negra. Continuei a leitura recorrendo, então a uma rígida disciplina, procurando me libertar dessas atitudes.


À medida que fui persistindo em minha convivência imaginária com Josephine Baker, pude conhecê-la melhor, e ela começou a se distinguir da fantasia. Apesar de Josephine sem dúvida dispor de muita energia, coragem e otimismo, descobri que boa parte de sua naturalidade era, como é para qualquer artista, uma ilusão produzida com muito esforço, uma ilusão que exigiu dela um empenho cada vez maior com o passar dos anos. Sua fanfarronice era bem verdadeira – afinal ela não era nenhuma florzinha delicada -, mas ela também ocultava seus temores e inseguranças. Uma pessoa de quem eu gostara por sua promiscuidade exultante acabou se revelando alguém que se entregava com enorme facilidade, mas, quando se tratava de algo mais significativo, tornava essa entrega a mais difícil possível. Ela não confiava nos homens e tentava desviar sua intensidade erótica, para a qual o envesgar dos olhos era também importante. Ela exibia a sua despreocupação como uma espécie de escudo. Enquanto me adequava às constantes mudanças de minha percepção de Josephine, fiquei surpresa ao me dar conta de que eu acabara por vê-la como uma pessoa não muito diferente de mim mesma, sob uma série de aspectos.

Comecei, então a me perguntar se eu não atribuíra à ela uma parte de minha própria sensibilidade, e isso talvez seja verdade. Prefiro, porém, assumir esse risco do que imaginá-la como uma pessoa tão diferente de mim a ponto de pertencer a uma outra espécie.

Na sua forma menos afável, a pergunta "o que me levou a Josephine Baker?" indicava uma incongruência mal empreitada, que se revelou na grosseria de uma pergunta retórica, "o que uma metida a escritora branca pensa que está fazendo ao pretender escrever sobre uma ninfomaníaca negra?" O contraste entre "escritora branca" e "ninfomaníaca negra" me pareceu tão repulsivo quanto os comentários dos críticos, artistas e platéias francesas. Ademais, o termo "ninfomaníaca", tão empregado na década de cinqüenta para classificar qualquer mulher que fosse sexualmente mais ativa do que deveria ser na opinião de quem o empregava, então, sob que pretexto deveria ser usado pelas pessoas nos dias de hoje? A resposta categórica que eu daria agora a essa pergunta seria: "você se espantaria ao saber o quanto nós duas temos em comum."

Se eu não pudesse me manifestar a respeito de Josephine Baker, as pessoas talvez não acreditassem no grau de congruência de nossas fantasias, na intensidade do seu desejo de ser lembrada por suas idéias (e não beleza ou sexualidade tão ativas), ou na veemência com que nos meus sonhos eu estou no palco, vestida em figurinos teatrais, ante uma platéia em aplausos delirantes. E nós duas pudemos nos ver projetar uma na outra: ela escritora, eu dona dos palcos. Assim, considerar-nos tão diferentes que não pudéssemos ter nada a dizer uma à outra é o mesmo que nos nivelar por baixo, reduzindo ao mínimo nossa herança cultural comum, para não mencionar nossa qualidade de seres humanos.


O livro de Phyllis Rose está dividido em três partes, cada uma cobrindo uma fase cronológica totalmente diferente da outra.

Na primeira parte a atenção é concentrada no primeiro ano de Josephine em Paris, 1925-1926, e também é examinada as mitologias raciais que determinaram seu sucesso, bem como a carreira no teatro estadunidense que o precedeu. A segunda parte trata do resto do período entre as guerras e delineia sua transformação numa estrela européia, enquanto a terceira parte, que cobre o período de 1939 até a sua morte em 1975, enfoca sua atuação durante a guerra, sua militância pelos direitos humanos e os filhos que adotou e chamou de Tribo do Arco-Íris.
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imagens capturadas na internet sem referência de autoria. clique em ambas imagens pra sentir as bananadas, a negritude "minha".

3 comentários:

homoluddens disse...

não a conhecia. adorei os vídeos. se ela se entregasse a mim com enorme facilidade eu não me faria de rogado, não lhe meteria a peia, mas algo bem menos delgado.!
abraços.

homoluddens disse...

que horro de comentário!rs.

Mai disse...

Nina,
que bom que eu te achei. E também foi num saite. Em blogue que, em comum, visitamos.
E arriégua!!!
Porque será que eu ainda não tinha pensado em te visitar, né?
ouxi!!!
Quem perdeu fui eu...
Texto preciso num registro irônico, sarcástico e bem humorado, na medida certa e com delicadeza. De tão bom eu lí num gole só.
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Agora, efeito colateral da leitura - de fato, fiquei aqui pensando com os meus botões: o que hoje seria reservado como original e exclusivo às ninfomaníacas e que já não esteja nas novelas globais?
Ou na casa branca com estagiária branca?
E sabe que esta tua observação acabou me fazendo pensar em ninfo, como ninfas vestindo hábito e com escapulário, vivendo em clausuras, uma vida recatada e pudica???
Muito bom teu texto, teu blog e eu voltarei, certamente.

Abraços,